Transtornos alimentares na infância e adolescência

Transtornos alimentares na infância e adolescência

Nutrição

A obesidade transformou-se em problema de saúde pública em todas as faixas etárias, inclusive na infância e adolescência. Visível aos olhos torna-se fácil de identificar. Diferente dela existem transtornos alimentares tão graves quanto, porém difíceis de serem percebidos. O número de crianças e adolescentes com anorexia nervosa, bulimia nervosa e a compulsão alimentar tem aumentado, especialmente a partir dos 11 anos. Em tais condições há uma perturbação na maneira como o peso e a forma corporal é vivenciada, ou seja, na forma como a criança ou adolescente se enxergam. A imagem corporal tem papel importante na primeira fase da vida, no desenvolvimento da identidade e da constituição do eu, por isso, essa fase da vida é tão vulnerável a ocorrência dos transtornos alimentares. Estudos demonstram que até 50% das meninas e 30% dos meninos têm hábitos alimentares errados que podem afetá-los física, academica, psicológica e socialmente. Destes, 50% irão evoluir para algum transtorno alimentar demonstrando a importância de uma alimentação saudável e o potencial de gravidade destas condições. Uma vez identificadas, apoio familiar, ajuda profissional e tratamento multidisciplinar é fundamental para resolução de tais condições.

O que é Anorexia Nervosa?

A anorexia nervosa ocorre quando a ingesta de calorias é inferior às necessidades do indivíduo de acordo com a idade, com o sexo e o necessário para manter um desenvolvimento saudável. Como resultado de um consumo baixo de alimentos, essas pessoas costumam ter um peso corporal ou índice de massa corporal (IMC) abaixo do mínimo recomendado. Os indivíduos acometidos têm um medo intenso de ganhar peso e demonstram um empenho continuo para obter magreza, como por exemplo, através de dietas rígidas e exercícios intensos.

O que é Bulimia Nervosa?

A Bulimia ocorre quando a pessoa apresenta episódios de compulsão alimentar os quais se seguem dos chamados comportamentos compensatórios (indução de vômitos, uso de laxantes e diuréticos, prática exagerada de exercícios físicos…). Aqui o peso pode estar normal ou até aumentado.

O que é Compulsão Alimentar?

Os episódios de compulsão alimentar são caracterizados pela ingesta rápida e descontrolada de alimentos, em uma quantidade maior que a maioria dos indivíduos conseguiria consumir no mesmo período de tempo e pela falta de consciência da quantidade ingerida. O episódio de compulsão geralmente é seguido de forte sentimento de culpa e arrependimento, porém, diferente da Bulimia, não ocorrem os comportamentos de compensação.

Quando suspeitar de algum transtorno alimentar?

Deve-se pensar que algo errado possa estar acontecendo nas seguintes situações:

• Mudança de peso significativa;

• Longas e repetidas idas ao banheiro: geralmente, após as refeições, para provocar o vômito. É comum deixarem torneira ou chuveiro ligado para esconder o som do que estão fazendo;

• Exercício em excesso: adolescentes começam a praticar esportes excessivamente como forma de gastar as calorias consumidas;

• Dores de garganta ou problemas de dentição: os frequentes vômitos levam a irritação da garganta e corrosão do esmalte dentário pelo suco gástrico ácido do estômago;

• Lesão da pele do dorso da mão ou calos nas mãos (“Sinal de Russel”), provocadas ao tentar induzir os vômitos colocando os dedos na garganta;

• Esconder comida: não só para parecer que comeu sem precisar fazê-lo, como também, como reserva para os episódios de compulsão;

• Recusa constante em comer / Restrição de grupos de alimentos sem substituição;

• Evitar atividades que envolvam comida: passam a não querer participar de situações que envolvam comida como ir a festas, aniversários, ou sentar à mesa nas refeições;

• Irritabilidade, isolamento, tristeza e queda no rendimento escolar: que demonstram o comportamento clínico ou emocional do transtorno.

Quais as consequências dos

transtornos alimentares?

Eles contribuem para o surgimento de doenças crônicas como obesidade, diabetes e dislipidemias. Além disso, comprometem o crescimento, desenvolvimento e aprendizagem. Há prejuízo da saúde bucal (queilose, erosão dental, periodontites…) e saúde física de formas diversas; prejuízo das relações sociais e familiares; maior associação com dependência química, delinquência juvenil, início precoce da vida sexual e gravidez na adolescência. Por fim, há o risco de morte, quer seja por complicações médicas ou suicídio, pela insatisfação permanente e sofrimento pela doença.

Quais suas causas?

Os transtornos alimentares são causados por inúmeros fatores. A cultura que valoriza a magreza e atribui ao indivíduo um valor e importância associado à imagem externa é um dos fatores implicados. Aspectos emocionais como insatisfação corporal, baixa autoestima, relação negativa com a comida, aplicação de regras e controle alimentar excessivo a criança, além de dietas sem orientação adequada. E por fim, a existência de outras doenças psiquiátricas. Um transtorno alimentar pode ser apenas a ponta do iceberg e esconder outros problemas como ansiedade, depressão, conflitos com a sexualidade, dificuldades na construção e exercício da própria individualidade, de enfrentamento do cotidiano, conflitos familiares, exigências excessivas e perfeccionismo.

O que a família pode fazer?

Além de ficar atenta aos sintomas de alerta descritos, ela é essencial na transmissão de valores relacionados ao peso e ao comportamento alimentar. Estudos demonstram que pais que faziam dieta para emagrecer, influenciavam seus filhos a emagrecerem, independentemente deles apresentarem sobrepeso ou não. Por outro lado, o hábito de jantar com a família na maioria dos dias da semana se associou negativamente ao início do uso de métodos purgativos, à compulsão alimentar e à realização de dietas desnecessárias. O momento das refeições é fundamental na determinação do comportamento alimentar e no desenvolvimento de seus transtornos. Além disso, a amamentação com livre demanda resulta em maior saúde alimentar no futuro, fortalecimento do vínculo entre mãe e filho e saúde emocional.

*Dra. Ana Cristina Haas | CREMERS 28370 | RQE 30257